Jogador Nº 1 - Crítica

Por Luiz Gustavo Ribeiro



Em 2045, o mundo está bem diferente do que estamos acostumados – ou nem tanto assim. As pessoas esquecem dos problemas reais e passam a maior parte do tempo numa realidade virtual conhecida como OASIS. Baseado no livro de 2011 de Ernest Cline, Jogador Número 1 chega aos cinemas dirigido por Steven Spielberg e é um deleite nostálgico para os fãs de videogame. 

Steven Spielberg está de volta à sua velha e consagrada forma. Em Jogador Número 1, o cineasta traz o espírito de suas grandes obras dos anos 1980 e 1990. Com maestria, o diretor mistura fã service com belas sequências de câmera, uma excelente mixagem de som e uma edição precisa; cada detalhe foi calculado para fazer com que o filme tenha vida própria e mostra que o longa não depende só das referências. Junto aos roteiristas Eric Eason e Zak Penn, Spielberg estrutura um filme de ficção-científica bem humorado, com personagens eficientes.

Após a morte do excêntrico e carismático James Halliday (Mark Rylance), criador do OASIS, os jogadores partem em busca das três pistas escondidas dentro do jogo pelo desenvolvedor. O vencedor do desafio recebe controle total do jogo, além de uma enorme quantia em dinheiro. O roteiro conta bem a história e é claro com o objetivo do filme. O texto consegue apresentar seu principal personagem com eficiência: Wade Watts/Parzival (Tye Sheridan) é um bom protagonista, carismático e convincente o suficiente para atrair a torcida do espectador. Ao seu lado temos Samantha Cook/Arth3mis (Olivia Cooke), uma personagem de personalidade forte que tem suas próprias motivações (pouco exploradas na história, no entanto). Em paralelo, o funcionário do alto escalão da IOI (Innovative online Industries), empresa que quer dominar o OASIS, o vilão Nolan Sorrento (Ben Mendelshon) é bem semelhante à vilania clássica dos anos 80: é irreverente e engraçado, contudo, vai se perdendo aos poucos e ficando exagerado no último ato, no que diz respeito às suas ações no mundo real. 

Wade usando o OASIS.

Apesar de tantos acertos, o roteiro apresentou algumas falhas pertinentes. O longa falha ao não introduzir um breve contexto do motivo pelo qual o mundo estava daquele jeito em 2045 e foi raso em alguns momentos. Além disso, os personagens coadjuvantes não foram bem apresentados. Ainda que tenha esse problema, as atuações foram impecáveis e os personagens têm relações bem desenvolvidas e bem encaixadas na trama, cada um com seu papel e sua devida importância; vale ressaltar a atuação de Lena Waithe, intérprete de Aech, o melhor amigo de Parzival no OASIS.

O ponto forte do longa é sua construção audiovisual. A bela fotografia mostra a composição e os detalhes dos ambientes: no mundo real é perceptível a predominância de cores frias, como o cinza, que dão sentido ao contraste social em que os personagens estão inseridos; já no OASIS, podemos ver um mundo colorido, com cores vibrantes, que remetem ao gênero dos videogames, enaltecendo a era digital. O mundo digital prende a atenção do espectador não só pela quantidade de informação, mas também pela dinamicidade e pela sensação de liberdade transmitida.

A dinâmica apresentada é mérito da edição precisa do filme, que mostra de uma forma natural e orgânica as consequências do que aconteceu dentro da OASIS no mundo real. A computação gráfica e o 3D são outro acerto: os efeitos foram muito bem feitos e desenvolvidos e cada detalhe transmite uma essência especial para a boa construção das sequências.


O objetivo de Wade e seus amigos é encontrar as pistas deixadas por Halliday.

Composta por Alan Silvestri (De Volta Para o Futuro), assim como em todo o filme, a trilha seguiu uma vertente ligada aos anos 1980, com músicas nostálgicas e conhecidas que remetem à famosa época. A mixagem de som também tem seus méritos, assim como os efeitos visuais, já que cada detalhe sonoro foi de extrema importância para a melhor experiência do longa.

Michael Jackson em Thriller, Prince em Purple Rain; heróis e vilões da DC Comics como Batman, Coringa e Arlequina; o DeLorean de De Volta Para o Futuro; as Tartarugas Ninja, 007, Overwatch, Gigante de Ferro, O Iluminado, Street Fighter e muitos outros. As incontáveis referências escolhidas por Spielberg são um atrativo a mais para o público. Algumas aparecem em evidência, outras no plano de fundo, mas todas com o sabor nostálgico de uma das maiores uniões de Easter Eggs dos últimos tempos, se não a maior. Todavia, em relação às referências, o filme foi didático demais em alguns momentos, tirando a experiência do espectador em encontrar os Easter Eggs.

Além de trazer a magia das ficções científicas do passado aos novos tempos, Spielberg, em meio a todo o show visual, ainda faz algumas críticas sutis sobre problemas sociais que acontecem atualmente. O filme traz assuntos pertinentes em nossa sociedade, como a insatisfação das pessoas com seus próprios corpos – já que no OASIS as pessoas podem ser da forma que elas sempre sonharam em ser, sem qualquer forma de julgamento. Outra crítica feita é sobre os jogadores sempre estarem em busca de coisas materiais, como moedas e itens, e quando morrem perdem tudo, ficam zerados – essa é a maior preocupação de todos por lá, esquecendo o principal e simples desejo de Halliday: aproveitar e se divertir com OASIS.

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