Kiss Me First: quando o jogo se mistura com a vida real

Por Marcelha Pereira 

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

Arte de divulgação da série.

Kiss Me First é uma série sobre realidade virtual criada por Bryan Elsley, também criador do famoso seriado de drama adolescente Skins. Começou a ser exibida este ano no canal de televisão britânico Channel 4, em 2 de abril, e chegou à Netflix em 29 de junho. Prometendo trazer drama e mistério, a obra é inspirada no livro de mesmo nome da autora Lottie Moggach

A temática da realidade virtual está em alta em muitas produções audiovisuais nos últimos tempos e é a partir do virtual que toda a trama de Kiss Me First é construída. A série conta a história de Leila, interpretada por Tallulah Haddon, uma menina solitária que acabou de perder a mãe e precisa arranjar um emprego para se sustentar. Logo ela encontra uma vaga em um pequeno restaurante de bairro e passa a dividir o seu apartamento com um até então desconhecido, que se chama Jonty (Matthew Aubrey), sob o critério de que ele não pode a importunar em seu quarto já que ela passa todo o seu tempo livre no jogo Azana World

Seu avatar em Azana se chama Shadowfax e é lá que Leila se sente em casa, livre para voar pelo céu enquanto não entra em combate com algum outro jogador. É em um desses intervalos de combate que Shadowfax percebe estar sendo observada por uma avatar que não conhece. Mais tarde, ela descobre que a avatar se chama Mania e se surpreende quando a pessoa por trás da personagem aparece atrás dela no restaurante em que trabalha sob o nome de Tess - interpretada por Simona Brown

Leila e Tess, respectivamente.

O que deixaria qualquer pessoa com medo da pessoa que está a seguindo, deixa a solitária Leila curiosa e amiga da misteriosa Tess – que revela a existência de um paraíso secreto dentro de Azana, o Red Pill. O nome para a seção desconhecida dentro do jogo faz referência à pílula escolhida por Neo no filme de 1999, Matrix - a pílula vermelha mostra a realidade como ela é (nua e crua), enquanto a azul mostra o mundo de ilusões. O lugar em Azana, portanto, serve para os jovens que têm acesso a ele poderem ser eles mesmos. 

Ao mesmo tempo que soa contraditório, visto que eles estão se escondendo por meio de um computador e fugindo da vida real por meio de um jogo, o nome faz sentido pela liberdade que a pílula vermelha traz para quem a toma. Todos os jovens que frequentam o lugar sofrem algum problema em sua vida real, como Tess fala em uma cena: “todos são jovens desajustados” que vão para o Red Pill aproveitar um pouco da liberdade proporcionada lá. 

O grupo é composto por Mania, que sofre com problemas psicológicos; Force (Freddie Stewart), que sofre com pressões do pai; Jocasta (Misha Butler), uma mulher trans que não se sente aberta para ser quem é na vida real, atendendo pelo nome civil e vivendo como a sociedade obriga; Tippi (Haruka Abe), que assim como Shadowfax, é solitária; Calumny (George Jovanovic), que tem problemas com o pai agressivo; e Adrian (Matthew Beard), o líder do grupo, foi quem criou o Red Pill e parece sempre estar sob controle dos demais integrantes.

Alguns dos participantes ficam resistentes quando Shadowfax entra no lugar convidada por Mania, mas ela acaba ficando e recebe em sua casa um colar desenvolvido por Adrian – o qual permite que Leila sinta todas as sensações pelas quais sua avatar está passando dentro do jogo. Apenas o grupo possui esse colar, que é ilegal no jogo tanto quanto a criação de um espaço como o Red Pill.

Avatar da Leila no jogo Azana, Shadowfax

As cenas da série mesclam entre a vida real e a realidade virtual do jogo. O design gráfico do jogo de Azana é muito bem construído e todos os avatares são extremamente idênticos com os personagens reais, o que revela que ele foi pensado com todo o cuidado. Esse é o ponto alto da série, não deixando a desejar. 

O enredo começa a criar força quando Calumny comete suicídio enquanto estava no paraíso escondido de Azana, o Red Pill, e Leila presencia o momento junto com Adrian. No momento, ela não entende que a situação se trata de um suicídio e por influência de Adrian apoia a decisão de Calumny em fazer o seu avatar pular de um penhasco. No outro dia, sentindo a falta dele no jogo, ela vai atrás de saber o que aconteceu e descobre, por Tess, onde a pessoa por trás do avatar mora. 

Indo até o bairro de “Calumny”, ela descobre que o garoto pulou do alto do prédio onde ele morava enquanto estava no jogo. Leila fica transtornada e culpa Adrian e a si mesma pelo acontecido. Nesse momento, a série traz a questão chave de todo o enredo: o vício em videogames. O vício jogos, a partir de junho de 2018, passou a ser tratado como distúrbio de saúde mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os padrões considerados pela OMS para a “gaming disorder” são a falta de controle sobre o jogo e o aumento da prioridade dada a ele ao ponto deste ter precedência sobre outros interesses da vida e atividades diárias. 

Leila, então, começa a observar o caráter manipulador de Adrian e decide investigar quem está por trás do avatar - infelizmente não obtém sucesso, o código do jogo é protegido para que nem o melhor hacker tenha acesso. E a medida em que vai percebendo que está sendo observada e perseguida por Adrian, Leila acaba descobrindo o paradeiro da criadora do jogo. 

A mulher havia sido solta recentemente após ser presa por matar o marido. Leila vai até ela e, com sua sagacidade para ligar fatos, desvenda que Adrian é na verdade filho da criadora, mas não consegue descobrir o motivo para a criação do Red Pill e toda a manipulação com os integrantes do grupo de “desajustados”. Sem maiores respostas, ela volta para casa e descobre que Tess (Mania) e os outros integrantes da Red Pill receberam um convite para ir até ele. 

Adrian só aparece em sua forma avatar, todas as suas cenas acontecem no jogo.

Jocasta, Force e outras duas pessoas ligadas à Azana morrem e a mídia, manipulada por Adrian com a ajuda de Tippi, começa a culpabilizar Leila. Tess descobre toda a manipulação quando Leila a salva na mansão Red Pill e as duas decidem fugir com Jonty, o colega de apartamento. A primeira temporada acaba com os três fugindo por uma estrada e com única certeza de que Adrian ainda os persegue. Sem maiores informações.

Kiss Me First acaba sem revelar quem realmente Adrian é e quais as motivações para a criação do espaço escondido e do grupo Red Pill, sabe-se apenas que ele tem problemas com a mãe, a criadora de Azana. Apesar de muitos temas serem tratados, como pedofilia, suicídio, manipulação, problemas psicológicos e, principalmente, o vício em jogos e como eles afetam a vida real, fica a sensação de que muito foi abordado e pouco foi revelado. 

O próprio nome da série ficou sem explicação, o que não costuma acontecer – em qualquer série, o nome que não é automaticamente compreendido, fica explicado pelo menos em algum dos primeiros episódios. Tanto que, a princípio, foi esperado que Leila e Tess vivessem uma relação amorosa com base no nome e na arte de divulgação da série, além dos olhares e expressões corporais nos primeiros episódios. Quando não acontece nada, pelo contrário, Leila se relaciona com Jonty, seu colega de apartamento, fica no ar o motivo para a escolha do nome da produção.

Talvez os buracos no enredo sejam tapados na segunda temporada, que não tem data de estreia marcada, mas a falta de esclarecimentos deixou a desejar na primeira, o que é ruim. O design gráfico do jogo é o que mais chama atenção, como elogiado mais acima, mas não é o bastante para sustentar o público, já que as cenas dentro do jogo parecem ter acabado. A falta de maiores revelações, a não ser a de que Adrian é filho da criadora de Azana, deixa pouco espaço para a criação de teorias do que virá na próxima etapa da série. 

O final é morno, não causa hype porque ficou mistério por mistério. Sabe-se que há manipulação dos jogadores de Azana por uma pessoa que possui desavenças com a criadora do jogo, que jogadores estão morrendo e que Leila está sendo usada como bode expiatório, mas não há aprofundamento para que teorias possam ser tiradas e hypadas, o que causa frustação. De forma geral, é uma série que tem bom conteúdo, mas que infelizmente é preciso esperar a segunda temporada para chegar a uma conclusão sobre ela. Por hora, vale a pena separar um final de semana casual para assistir e esperar a próxima fase.

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