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Sovdagari: “A batata é como dinheiro para nós”

Por Vinícius Veloso

O Mercador, documentário original Netflix.

A Europa que estamos acostumados a ver nos noticiários, filmes e séries, um lugar de muitas benesses e de paisagens incríveis nem sempre é o que parece. Batatas são como dinheiro para um pequeno povoado do interior do leste europeu. E o documentário Sovdagari (O Mercador) prova isso. Gela Kolochovi é o comerciante que sai de Tbilisi (capital da Geórgia) em sua van para vender produtos em um vilarejo do país. Roupas, sapatos, acessórios domésticos e comidas são uma das mercadorias levadas por ele. Mas, neste contexto, o vendedor ambulante não tem noção de que capitalismo e pobreza andam lado a lado. 

A cineasta e diretora do documentário, Tamta Gabrichidze, mostra esses contrastes com muita clareza. Crianças, adultos e idosos da vila parecem estar perdidos no tempo. Há momentos em que o telespectador é situado para algum momento da Guerra Fria ou Idade Média. O cenário, composto de cores frias, dá um tom de morbidez, melancolia e afastamento ao lugar. As mulheres se vestem como camponesas e vivem um estilo de vida baseado na colheita e plantação de batata com as mãos. Algo rústico, arcaico, é como se o agronegócio não tivessem chegado lá. Mas a verdade é que não chegou. 

A van do mercador é como se fosse um parque de diversões para as crianças do vilarejo.

Ao entrar no vilarejo, os populares saltam os olhos para as novidades que podem estar dentro da van do mercador. Entretanto, eles sabem que para poder comprar algum produto precisam ter feito uma boa colheita. “Quanto custam as botas?”, pergunta uma mulher. “25 quilos de batata”, responde o vendedor. Em seguida, ela busca uma saca e paga como se fosse dinheiro a ele. Um autêntico escambo. O lári - moeda georgiana - parece não ter valor perto das batatas.

Objetos como papel higiênico e esponjas de lavar louças são inéditas para alguns georgianos. As crianças ficam maravilhadas com as bolhas de sabão sopradas pelo mercador, mas elas não ganham nada, apenas um pedido para que avisem aos seus pais que ele está ali. 

O momento marcante do curta-metragem é a presença de uma idosa que precisa comprar um ralador que custa 5 láris. Mas ela tem só 1 lári. “Então me dê isso de presente ou vou comprar por 1 lári. (...) Sou velha, sozinha, não tenho ninguém”, diz a velhota. O mercador pouco se importa com a condição de vida da mulher. “1 lári é uma boa proposta ou me dê de presente”, insiste ela. Sem resposta e nada feito, aos poucos ela vai indo embora. Do jeito que veio, sem nada. 

Cartaz que mostra a idosa que precisa comprar um ralador, mas não tem dinheiro suficiente.

A grave crise financeira que atravessa a República da Geórgia é um dos reflexos mostrados no documentário. O vilarejo é uma das vítimas desse problema, e, consequentemente, todos os seus moradores. Ademais, os conflitos armados com a Rússia ao longo das décadas após a dissolução da União Soviética, e os movimentos separatistas da região da Ossétia do Sul agravam os problemas sociais. 

Já em Tbilisi, depois de retornar das vendas, as batatas arrecadadas da troca são vendidas pelo mercador em uma feira. Ao final do documentário, a cineasta pergunta ao mercador: “Gela, você está feliz ou satisfeito?”. Ele retruca. “Como posso estar feliz ou satisfeito? Levei dois dias para vender tudo (batatas). (...) Seria melhor vender em um”. Gela em nenhum momento se preocupa com as dificuldades enfrentadas pelos moradores do vilarejo, somente com a demora na venda das batatas. 

O Mercador, que é uma produção original Netflix, concorreu ao Festival de Sundance de 2018, mas não foi premiado. Porém, essa não é a questão mais importante, o que é trazido à tona é o mais essencial. O curta nos deixa uma reflexão: o que é mais importante para nossa sobrevivência? Talvez, muitos não tenham a menor ideia, mas, com certeza, os moradores do vilarejo sabem responder: a batata. 


Ficha técnica

Título: O Mercador 
Ano: 2018
Direção: Tamta Gabrichidze
Duração: 23 min

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