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A Doutora está aqui

Após hiato, Doctor Who volta com uma nova protagonista e abraçando novos espectadores

Por Anna Vale
Jodie Whittaker interpreta a 13ª encarnação do Doutor (Foto: BBC/Divulgação)
Uma onda progressista de protagonistas femininas têm tomado a indústria da cultura pop ultimamente, dando às meninas a chance de se verem nas telas, em papéis que costumavam ser reservado para o sexo masculino. O mais recente e talvez mais icônico nome a entrar nessa lista é Doctor Who. A série britânica conhecida como a mais duradoura do gênero de ficção científica terá, pela primeira vez em 55 anos, uma mulher no papel titular – o Doutor, um extraterrestre que viaja pelo tempo e espaço em uma nave disfarçada de caixa de polícia.

Tal mudança é permitida graças a um truque narrativo instaurado nos primeiros anos da série, quando a produção desfrutava de um grande sucesso, mas a saúde do seu protagonista, William Hartnell, estava se deteriorando rapidamente. Um roteirista sugeriu que, como característica biológica da sua espécie, os Senhores do Tempo, seu corpo inteiro se renovasse em caso de fatalidade. Assim nasceu a “regeneração” e, desde então, 13 homens interpretaram diferentes encarnações do personagem, sendo o último deles o escocês Peter Capaldi.

A escalação de uma mulher para o papel principal da série é algo que os whovians, como é chamada a base de fãs, têm pedido desde o seu relançamento em 2005. A possibilidade vem sido discutida nos bastidores desde 1983. Bruna Souza, de 18 anos, acompanha a série desde de 2012 e acredita que o momento da transição não poderia ser mais fortuito: “pode parecer até um tanto ridículo, mas somente uma mulher poderia substituir o ótimo trabalho feito pelo Capaldi; fugindo completamente dessa concepção de herói”.

A escolhida foi Jodie Whittaker, conhecida por seus papéis no episódio “The Entire History of You”, de Black Mirror, e em Broadchurch, série criada pelo novo produtor de Doctor Who. Seu anúncio foi recebido com uma reação mista, mas calorosa por parte do público feminino. “Eu, como mulher, adorei me ver na personagem principal e eu acho que isso vai ser algo muito maravilhoso de ser explorado na temática da série,” explicou Lívia Vieira, 21, dona do perfil “Doctor Who out of context” no Twitter.

A mudança se concretiza ao mesmo tempo que a série muda de showrunner. Chris Chibnall assume após oito anos com Steven Moffat, um dos criadores de Sherlock, no comando. Além disso, a Doutora também voltará a viajar com três companheiros, como ocorria quando a série estreou em 1963 e, pela primeira vez, haverá maior diversidade étnica entre os roteiristas. As novidades não são só criativas, mas também logísticas: o dia da exibição passou para os domingos à noite, os episódios ficaram mais longos e devem focar no formato original da série clássica, com o “monstro da semana”, ao invés dos arcos narrativos que eram a marca registrada de Moffat.

Jodie Whittaker, a mais recente Doutora e William Hartnell, o Primeiro Doutor com os seus devidos companheiros (Foto: BBC/Divulgação)
Liz, de 14 anos, tinha pouco mais de dez quando começou a assistir e se interessar pela série. Como muitos fãs, ela abraça a mudança como essência da série, destacando que dessa vez terá “mudança de tempo, mudança de espaço, mudanças de rosto, de personalidade e de todo o resto”.

Entre Chibnall, Whittaker e as diversas mudanças trazidas por essa nova era de Doctor Who, alguns fãs se encontram receosos com a nova temporada, mas otimistas dado o visual mais cinematográfico dos trailers divulgados e a energia que a nova Doutora parece trazer, junto aos seus novos amigos. Outros decidem rejeitá-la completamente, argumentando contra a decisão de mudar o gênero do personagem – a qual, segundo Chibnall, sempre esteve em seus planos.

“Todo novo Doctor inicia sob suspeitas e possibilidade de fracasso,” explica Débora Castro, de 37 anos, confessando que demorou a gostar das encarnações queridinhas do público. “O peso é grande para a Jodie. Estão mudando o gênero de um ‘herói’ da cultura pop inglesa”.

A Doutora posa com sua companheira, Mandip Gill (centro) e algumas das mulheres que tornam a série possível (Foto: Twitter/Doctor Who)
Ao se tornar uma mulher, a Doutora se junta às incríveis personagens femininas já existentes no universo de Doctor Who. São mulheres complexas de todas as espécies, cores e sexualidades, das mais diversas ocupações e que não se confinam às definições de bem e mal tradicionais. Vilãs ou mocinhas, as mulheres impossíveis de Doctor Who correram, choraram, esperaram, mataram, salvaram, andaram a Terra e provaram que você não precisa de testosterona para salvar o universo.

Até então, as mulheres foram quase sempre confinadas ao papel de companheiras do Doutor, servindo como representantes do espectador e para quem seria apresentado um universo fantástico. Ao longo dos anos, elas também representaram as espectadoras ao servirem como a consciência, o bom senso e as salvadoras do Senhor do Tempo. Agora, elas serão as Senhoras do Tempo.

A primeira aparição oficial da Doutora ocorreu nos momentos finais de “Twice Upon a Time”, especial de natal de 2017, o qual foi exibido simultaneamente na BBC e em salas de cinema por todo o mundo. Então, Peter Capaldi deixou o personagem e Jodie Whittaker assumiu, causando aplausos e lágrimas dos fãs que se despediam de um favorito.

Pegando exatamente de onde o episódio anterior parou, “The Woman Who Fell to Earth” abre a 11ª temporada neste domingo, 7 de outubro, com exibição simultânea na BBC e mundialmente, em salas de cinema da rede Cinemark, permitindo que whovians compartilhem a emoção desta nova era e novos espectadores se encantem com esse universo.


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