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O futuro do cenário musical independente de Natal

Por Ana Carla Dantas, Beatriz Navarro, Marcelha Pereira e Marcelo Rocha

A cena musical potiguar

Apesar de muitas pessoas não saberem, não é de hoje que Natal se destaca no âmbito cultural com diversos atores, músicos, poetas e escritores lançados mundo afora. Muitos desses artistas começaram de forma independente e foram ganhando notoriedade por meio da participação em festivais regionais e estaduais. Far From Alaska e Plutão Já Foi Planeta são alguns exemplos de bandas natalenses, surgidas independentemente, que conseguiram ganhar espaço fora da cidade e do estado. A primeira banda já participou até mesmo de uma turnê na Europa e realizou gravações de músicas nos EUA. Plutão, por outro lado, participou do programa SuperStar da TV Globo e chegou à competição final, ficando conhecida em todo o Brasil. 

Exemplos de sucesso como os dessas duas bandas fazem abrir o olhar para o cenário musical potiguar. O que está sendo produzido? Como as bandas independentes se organizam? Como o Estado apoia as pessoas que querem investir nessa cena? Como funciona o incentivo? Essas são perguntas que nos trouxeram curiosidade e que pretendemos abordar aqui. 

Como é produzir em Natal?

Banda Aresia. Membros: Álvaro Cruz (Violão), Anny Karoline (Baixo e Voz), Davy Fonseca (Violão e Voz) e João Emanuel (Bateria).

A banda Aresia surgiu em 2016 com o intuito de participar do festival de música da Expotec, organizado pelo IFRN Natal Central, para apresentar as composições do vocalista Davy Fonseca. Acabaram permanecendo juntos e compondo novas produções, saindo dos muros do Instituto Federal e ocupando espaços da cena independente potiguar. Os integrantes denominam o estilo da banda como “Surf Rock Rural” devido à variedade de estilos que influenciam os membros, como o brega brasileiro, o Country e a Surf Music. 

Sobre os desafios para as bandas independentes no contexto musical natalense, eles comentam que “as condições materiais, por vezes, impedem que as bandas sobrevivam por mais de um ano, ou ultrapassem o lançamento de um primeiro EP”. Contudo, eles citam que ainda assim há número crescente de coletivos e produtoras independentes que auxiliam essas bandas e movimentam o cenário, como os coletivos Brasinha, Nightbird e Sopro Movimento.

A banda compartilha também que há falta de espaços para a divulgação dos conteúdos dos projetos que surgem em Natal. No entanto, segundo eles, “ainda que no subsolo haja bandas desconhecidas espalhadas pelas zonas esquecidas de Natal, o Festival Dosol e o MADA, dois grandes eventos anuais, são capazes de chamar a atenção para a nossa terra, abrindo os olhos de bandas e produtoras que ainda não sabem que o Rio Grande do Norte existe”. Para o grupo, esses eventos que chamam a atenção de outros estados, podem ajudar a agitar o público potiguar e incentivar a criação de outras bandas. 

A questão financeira foi a primeira barreira que eles encontraram no caminho, a falta de equipamento e de transporte dificultou muito as ações da banda, desde ensaios à apresentações. “Neste aspecto, a ajuda de outras bandas e das produtoras locais foram essenciais para a sobrevivência da Aresia”, eles afirmam que é essencial que haja a preservação do sentimento de colaboração entre bandas e artistas para que a cena musical cresça cada vez mais. 

“O surgimento de meios de comunicação voltados para o cenário, de estúdios, de mais locais abertos para eventos independentes, bem como mais empenho das bandas e do público para fazer com que os eventos permaneçam dando certo, também é de fundamental importância. A expectativa é de que o crescimento permaneça e as novas bandas, que até agora vivem na periferia do cenário, sejam incluídas”, a Aresia encerra.

Quem emana grande entusiasmo em relação à ascensão dessa área artística potiguar é a banda já mencionada antes, Plutão Já Foi Planeta. Para eles, há “várias bandas de várias partes do estado fazendo bonito nos palcos. Temos várias bandas rodando o Brasil, sendo conhecida por aí a fora”. Contudo, a dificuldade se encontra no baixo foco em cultura do nosso estado e na desvalorização do artista, que vai desde não serem reconhecidos por grandes eventos, até serem chamados, porém não remunerados por estes.

Apesar de já terem um grande reconhecimento, segundo a banda, as dificuldades nunca acabam, “é como uma empresa”. Porém, há muita música de alta qualidade sendo feita no RN e o público é o que mais pode ajudar na repercussão desses artistas: “A música precisa de sobrevivência. Como nem sempre há apoio de autoridades, que as pessoas apoiem. E na prática! Vão pros shows, paguem, comprem produtos, etc. É um ciclo de sobrevivência. Banda e público se ajudando para que existam as coisas necessárias para o fortalecimento da cena e da cultura”, concluem.

Entrevistamos também a banda ARDU, que compartilhou como é a visão deles sobre como é produzir musicalmente na cidade potiguar. Confira:


Os incentivos culturais e como são aplicados para fomentar o cenário musical

Abrangendo todo o Brasil, a Lei Rouanet (Lei 8.313/1991) instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC), com o intuito de oferecer recursos financeiros a projetos culturais. As áreas envolvidas e incentivadas são a do teatro, dança, circo, música, literatura, artes plásticas e gráficas, gravuras, artesanato, audiovisual, além de museus e acervos.

Seguindo o fluxo da lei federal, estados e municípios de todo o país criaram leis estaduais e programas municipais de incentivo à cultura. Variando entre cada estado e município, são respeitadas as regras de atuação específicas de cada local. No Rio Grande do Norte, há a Lei Câmara Cascudo (Lei nº 7.799), de 30 de setembro de 1999. Em Natal, há o Programa Djalma Maranhão de Incentivo à Cultura, sob Decreto nº 8749, de 5 de junho de 2009, e através dele, a prefeitura possibilitou, em 2017, a execução de 81 projetos culturais para a cidade. 

Abaixo, conferimos o modo como funciona o incentivo de acordo com cada lei e programa:

Infográfico por Beatriz Navarro.

Pessoas físicas que atuam na área cultural (como artistas, produtores e técnicos); pessoas jurídicas de natureza cultural (como fundações); e pessoas jurídicas privadas e de natureza cultural (com ou sem fins lucrativos, como cooperativas e organizações não governamentais) podem solicitar apoio dessas leis e programa através de editais que abrem anualmente.

Fernanda Ferreira, 24, é produtora cultural e comenta a importância desses incentivos: “É muito complicado conseguir patrocínio direto, principalmente para artistas iniciantes e para projetos de pequeno porte. Com as leis de incentivo isso se torna mais possível, apesar de todos os entraves que ainda existem com a seleção desses projetos sendo feita pela empresa patrocinadora”. Ela conta também que eles são importantes para a fomentação da produção local e nacional, e, diferente do que alguns críticos costumam acreditar, há fiscalização para saber se o incentivo está sendo usufruído da maneira correta.

Pela Lei Rouanet, somente em 2017, foram aprovados um total de 5.456 projetos. Destes, apenas 21 no Rio Grande do Norte, enquanto Pernambuco e Bahia contaram com 127 e 107 projetos aprovados, respectivamente. Das cinco regiões brasileiras, o Nordeste ficou em terceiro lugar no ranking de projetos aprovados, com 419. A região Sul contou com 1.280 e a Sudeste com 3.489. A seguir, conferimos mais detalhes:

Infográfico por Marcelha Pereira. 

Segundo o Portal da Transparência do Ministério da Cultura, de 1992 até 27 de novembro de 2018 (data em que coletamos os dados), o total de projetos aprovados em todo o país pela Lei Rouanet gira em torno de 119.893. O Nordeste permanece como terceiro colocado no número de projetos aceitos, com 11.014, enquanto Sul e Sudeste se colocam na frente, com 21.097 e 78.617. No Rio Grande do Norte, durante todo esse período, foram aprovados apenas 467.

Apesar do número de projetos aprovados no Nordeste ser comprovadamente mais baixo do que das regiões Sul e Sudeste, para os participantes da cena musical independente, ainda que trabalhem muito com crowdfunding (financiamento coletivo), é de grande estímulo contar com a possibilidade de ganharem apoio federal, estadual ou municipal. Ademais, a criação de festivais de música, que contam com patrocínios oriundos dessas leis e programas, também auxilia na divulgação de mais bandas e artistas independentes, além de cumprir com a função de levar cultura à sociedade. 

O futuro do cenário musical independente potiguar é promissor. Bandas e artistas independentes surgem cada vez mais trazendo novas propostas de sons. Há uma variedade de gêneros sendo abordados e a colaboração entre os artistas e bandas só tende a fortalecer o laço musical natalense. Há produção musical em Natal, e de qualidade.


Encontre as bandas entrevistadas pela internet:

Aresia:

ARDU:
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PLUTÃO JÁ FOI PLANETA:
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