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Mitos femininos e a construção da figura da mulher na sociedade

Unidas em um único livro pelo professor e doutor em filosofia Renato Noguera, as famosas divindades revelam através de suas narrativas o quanto essas histórias foram construídas visando ensinar, ao longo do tempo, como ser mulher na sociedade 

Por Francisca Pires 

Capa do livro "Mulheres e Deusas", de Renato Noguera.

Publicado em 2018 pela editora Harper Collins Brasil, o livro “Mulheres e Deusas” propõe uma análise de mitos, com protagonismo feminino, de várias culturas e lugares diferentes. O objetivo é evidenciar o quanto estas narrativas influenciaram ao longo dos anos a construção e manutenção da cultura sexista que persiste até hoje na sociedade. O autor, Renato Noguera, dentro de suas evidentes limitações enquanto homem, busca trazer à tona algumas indagações acerca das mensagens trazidas pelas histórias das divindades e como estas visavam naturalizar e determinar quais comportamentos deveriam fazer parte do papel da mulher. 

Os mitos compilados são de origem: grega, iorubá, judaico-cristã e guarani. Cada um deles traz em sua construção estereótipos que reforçam concepções machistas e colocam a mulher em uma posição de inferioridade. Renato destaca ainda que a análise dos mitos, além de permitir uma reflexão sob um olhar mais feminino, também é uma forma de entender sobre o modo com o qual a imagem masculina foi construída perante a sociedade e posteriormente reafirmada através da disseminação dessas histórias. 

Ainda na introdução, são explicados alguns conceitos que norteiam a ideia principal que o livro quer passar. A filósofa Simone Beauvoir é citada para afirmar que a condição feminina não é uma natureza pronta e acabada, mas sim uma construção social imposta por diversos fatores e, nesse contexto, o autor do livro defende que a criação dos mitos apresentados pode ser vista como um deles. Esse momento inicial da leitura apresenta a filosofia como sendo um árduo combatente do determinismo biológico. O sexismo linguístico, por exemplo, é ilustrado com a questão da palavra “homem” ser tradicionalmente usada como sinônimo de humanidade enquanto que a palavra “mulher” costuma ser usada como sinônimo de esposa. Considerando que os mitos se eternizam através da linguagem, esse é mais um ponto que torna palpável a tese defendida pela narrativa de Renato. 

Após a breve introdução que visa contextualizar de forma mais teórica como a divisão de gênero se deu na maior parte das sociedades, os mitos começam a ser apresentados para ilustrar como essas condições são disseminadas na prática através da história. Os primeiros mitos apresentados são os gregos, através deles torna-se evidente o quanto nós, homens e mulheres contemporâneos, herdamos da Grécia uma antiga estrutura de organização social comandada pelo Patriarcado. 

O primeiro mito é o de “Héstia – A senhora do lar”, cuja construção reforça o estereótipo muito disseminado de que as mulheres são naturalmente donas de casa. Ele é seguido pelo mito de “Ártemis – A grande”. Esse, por sua vez, apesar de apresentar a deusa como um símbolo de força e competição, também traz consigo valores arcaicos como a ideia de que a família exerce um poder muito mais intenso sob a vida das mulheres do que dos homens. Sendo assim, a deusa precisa de autorização para tomar todas as suas atitudes, até mesmo para se relacionar afetivamente. Outro mito muito relevante para defesa da tese do livro é o de “Hera – A esposa aviltada”, onde é perceptível a disseminação do ideal de submissão atrelado as mulheres. Hera é constantemente subjugada pelo marido que a assedia moralmente e a coloca em posição de inferioridade. Ao encarnar o papel de esposa como sendo sua principal função na sociedade, a deusa é obrigada a lidar com as traições e mentiras de Zeus, tornando-se uma mulher ciumenta e capaz de realizar coisas absurdas em prol do seu casamento, ou pelo menos das aparências que envolvem seu relacionamento. Nessa parte do livro, alguns temas relevantes como competição feminina, masculinidade tóxica e feminilidade em desvalia são abordados e detalhados para melhor compreensão do leitor. 

Os mitos Iorubás são apresentados depois dos gregos e se constroem de maneira diferente dos anteriores. Ainda que a linhagem do seu povo seja demarcada por homens, por meio da figura paterna, e que o poder público, assim como o uso da força, fosse associado ao masculino, na cultura Iorubá prevalece um aspecto denominado pela antropologia como “matrifocal”. Ou seja, a articulação familiar, bem como a gestão familiar e tomada de decisões importantes, são atribuídas às mulheres, sobretudo as mais velhas. Essa nítida diferença da sociedade patriarcal também é evidenciada nos mitos típicos dessa cultura. 

Nesse contexto, Oxum é apresentada como uma divindade que tem conhecimento do seu poder, recusando o papel que foi designado a ela pelos orixás masculinos, consegue provar que dentro dessa cultura a possibilidade de fertilidade dava as essas mulheres a oportunidade de negociar espaços. Porém, apesar desse ar de empoderamento, os traços acerca da cultura machista são destacados novamente no mito do casamento de Iemanja e Oroquê. Nele, há uma insegurança por parte da mulher quanto ao seu corpo e a eterna cobrança de perfeição, enquanto que no homem a insegurança se instala no âmbito de sua virilidade, masculinidade. Na história, a beleza de Iemanjá, ou descuido dela, pode ser questionada pelo seu marido ainda que ela, como esposa, não possa questionar suas atitudes ou colocar em xeque questões que a incomodam quanto a ele, pois isto atinge diretamente a masculinidade e suposto poder exercido por ele dentro do casamento. 

Os ensinamentos trazidos pelos mitos judaico-cristãos levantam, mais uma vez, estereótipos de submissão e obediência. Apresentados através de trechos retirados da própria bíblia, os personagens se definem a partir de suas atitudes e relação com seu criador. A figura de Eva, construída como criatura feita a partir da costela de Adão, assume a submissão como sendo sua principal característica e missão de vida. Responsável pela expulsão de ambos do Jardin do Éden, após convencer Adão a experimentar do fruto proibido, ela representa um ideal disseminado em muitas culturas da mulher como criatura maligna que existe para desvirtuar o homem santo e fazê-lo cair em tentação. Eva, além de expulsa, é condenada a sangrar todo mês e sentir dores terríveis durante o parto para assim assumir seu papel de maior culpada do pecado. 

A história de Adão e Eva não soa como nenhuma novidade a uma sociedade marcada por princípios cristãos, no entanto, a grande jogada desse capítulo é a apresentação de Lilith - primeira esposa de Adão, desconhecida pela maior parte da população e sua história é rodeada de especulações. Uma delas é a de que o trecho que conta a história de Lilith em Gênesis foi retirado justamente por ela não ter aceitado tomar para si o papel de submissa e seu nome só vai aparecer mais adiante na narrativa batizando uma serpente. O mito relata que por ter sido feita do mesmo pó que Adão, Lilith se enxergava como igual e, portanto, merecedora dos mesmos direitos sobre seu corpo e suas vontades. Ao ser julgada e impedida de agir do modo que queria, a personagem mítica abandona por conta própria o Jardim do Éden, tornando-se uma grande ameaça ao ideal de mulher submissa difundido pelas religiões patriarcais. 

Por fim, são apresentados os mitos guaranis, estes destacam Iara como sendo símbolo de poder e astúcia, características que levam seus irmãos a planejar seu assassinato e mesmo assim ela sai vitoriosa, dona de suas decisões, provando que uma mulher consciente de seu poder pode vencer qualquer um. Outro aspecto importante do mito é a diferença de gênero sendo vista não como fator que torna os sexos complementares, mas sim assimétricos, desse modo, entendendo sua desvantagem física diante dos homens, a deusa investe em estratégias mais eficazes contra a característica força masculina. 

Além desse, outro mito com uma mensagem muito interessante é o de Jaci e Naiá que diz respeito a uma suposta relação afetiva entre duas mulheres. A narrativa apresenta as personagens como sendo uma deusa e uma mortal (a lua e uma índia) e, por este motivo, a relação torna-se impossível. Porém, a análise do autor propõe que nas entrelinhas o mito aborde, na verdade, as dificuldades existentes entre uma relação homoafetiva entre duas mulheres, sendo ainda mais complicada que a relação entre dois homens, considerando que há toda uma cobrança da sociedade para que a mulher tenha filhos, cuide da casa e do seu marido. 

Com uma linguagem clara, simples e metódica, Renato Noguera possibilita um novo olhar sob histórias já conhecidas e disseminadas no mundo todo. Trazendo aspectos ainda desconhecidos por maior parte da sociedade ou apenas promovendo uma reflexão dos detalhes, entrelinhas e supostas mensagens subliminares desses mitos, o autor prova que sempre existiu uma espécie de doutrinação acerca do que está certo ou errado na postura de uma mulher na sociedade. Maior parte das divindades apresentadas ou foram criadas para reforçar ideais machistas ou refletem em suas narrativas a realidade cultural na qual estavam inseridas, naturalizando, portanto, estereótipos machistas disseminados até hoje na sociedade. 

O livro instiga seu leitor a questionar tudo que lhe foi ensinado durante a vida através de contos, personagens mitológicos e demais histórias míticas. Toda mensagem difundida e naturalizada por meio desses estilos literários influenciaria de algum modo o comportamento e construção do cenário social existente hoje. Infelizmente, quando se trata de machismo, os mitos milenares compilados em “Mulheres e Deusas” nunca foram tão atuais.

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