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Crítica do livro A Rainha Vermelha, de Victoria Aveyard

*Por Ana Flávia Sanção

[PODE CONTER SPOILERS] 

Capa do livro (Imagem: Divulgação
Filho da onda de distopias que surgiu no mundo literário depois da saga Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, A Rainha Vermelha, escrito por Victoria Aveyard e lançado em 2015, traz o genérico mais uma vez: uma América do Norte destruída por uma guerra qualquer - cujo motivo ninguém tem conhecimento sobre -, com um grupo dominante que humilha a maioria trabalhadora, responsáveis por sustentar os que estão no poder. 

Como distopias são baseadas numa ideia comum - sociedades futurísticas ou alternativas quase apocalípticas - o carro chefe de qualquer escritor, para fazê-la se destacar, é saber ambientar e inovar dentro do seu universo. Em A Rainha Vermelha, vemos uma história que parece a mescla de Jogos Vorazes, Divergente, A Seleção e, para finalizar, X-Men. 

Dentro do genérico, o ponto de exploração de Aveyard seria os prateados - super-humanos que, diferentemente dos humanos comuns, possuem sangue cor de prata que os dão poderes de manipulação sobre elementos naturais, mentes humanas, objetos etc. Mare Barrow, uma vermelha subjugada, é uma ladra que, depois de um acidente dentro do palácio real, descobre possuir poderes e passa a ser usada pela realeza como um peão político para amenizar a revolta dos vermelhos, chamada “Guarda Escalarte”. 

Durante todo o livro, encontramos uma falta da descrição necessária para montar o universo em que Mare vive. Tudo que ela observa parece comum e, mesmo o leitor possuindo uma imaginação muito boa, o ambiente poderia muito bem ser algum dos distritos de Jogos Vorazes, tão simplista que é. Distopias se destacam por sua contextualização e cenário e, na falta de boas descrições, os diálogos devem levar o leitor a criar o universo no qual a história passa. Não encontramos nenhum dos dois no livro. 

A guerra, pano de fundo para todo universo do livro, não possui um motivo forte o suficiente e se sim, não é devidamente explorado. Apresenta-se como algo posto apenas para criar plot, sem ter sido muito pensado. Buracos fáceis de encontrar, por exemplo, podem ser na quantidade de anos que a guerra dura (uma nação pequena não conseguiria manter uma guerra por tanto tempo) e nos soldados enviados (mulheres em idade reprodutiva que são as únicas capazes de gerar vida humana, ou seja, mais futuros soldados). 

Uma pequena pesquisa histórica mostraria, em caso similar, que na Alemanha de Hitler havia uma forte campanha de natalidade para que as mães de família tivessem filhos assim como jovens meninas eram enviadas a campos de “treinamento” para aprender sobre família e natalidade. Há um claro desfalque logístico na conjuntura da guerra como um todo. 

Um ponto positivo são as cenas de ação. Aveyard sabe escrevê-las de forma a entreter e prender a atenção do leitor. Nas últimas 50 páginas do livro, as cenas são dinâmicas e apresentam bem o que querem passar. Alguns erros, que mais parecem cenas aleatórias para levar ao final vencedor à Mare, como a morte do prateado Arven, podem quebrar um pouco da ambientação. 

De forma geral, os últimos capítulos é onde o enredo se encontra a leitura parece fluir mais. Nos primeiros, Aveyard demora a desenvolver, escrevendo capítulos de “explicação” do mundo de Mare que poderiam facilmente ter sido colocados dentre outras cenas, o que daria mais profundidade à protagonista e aos personagens como um todo.

Personagens 


A imagem de garota desconfiada e reclusa, apesar de forte e corajosa, tal como uma Katniss - quase uma Katniss - se perde um pouco. Há poucas páginas que se seguem com somente os pensamentos de Mare, dando a entender que a autora não quer o livro perca ação em nenhum momento, mesmo quando necessário. Mare ainda parece perder um pouco da personalidade dela do início da história - antes teimosa e esquiva, ela cede nas mãos habilidosas dos prateadas tão fácil que não parece que um dia os odiou, o que leva o leitor a acreditar que seus sentimentos não eram reais ou estáveis, apenas algo criado socialmente. Mesmo que ela repita o quanto odeia aquele mundo em que foi posta contra seu gosto, cada vez mais parecem ser palavras forçadas, que Aveyard teima em colocá-las para que não pareça que sua personagem perdeu uma essência que já não era tão convincente assim. 

O relacionamento entre os personagens, na maioria dos casos, também fica a desejar. A amizade entre Julian, o professor, e Mare é a relação mais bem construída até então. Os outros personagens parecem meio perdidos. Kilorn, o melhor amigo vermelho da personagem principal, é uma imitação do Gale, de Jogos Vorazes, mas aparenta não haver uma ligação tão forte entre eles como Aveyard tenta passar. Da mesma forma, segue a relação entre Mare e Cal, o suposto par romântico central, que facilmente perde para a química que há entre Maven, irmão dele, e Mare. Se a ideia era criar um triângulo amoroso entre os príncipes irmãos e ela, a autora falhou. Há também, durante o livro, uma sugestão de ligação amorosa entre Kilorn e Mare, mas nenhuma contextualização que explique ou dê sentido. 

Outra personagem que incomoda um pouco é Evangeline, descrita como poderosa, má e impiedosa e que cisma com a presença de Mare na sua vida apenas por querer toda a atenção para si mesma. Num livro com personagem feminina principal, a ideia de uma rival mulher por motivos que parecem tão simplistas nos faz retornar ao clichê de que personagens mulheres sempre precisam ter rivais mulheres pelo simples fato de precisar de alguma mulher com quem bater de frente, por pura competição de gênero. Não está descrito em nenhum momento do livro a real razão pela qual Evangeline faz o que faz - somente a mera vontade de ser considerada a melhor e a necessidade de estar no centro das atenções. Evangeline, sendo uma mulher tão rica, poderosa e inteligente, não deveria sequer se sentir ameaçada tão fortemente por uma garota vermelha que veio do nada, não oferece diretamente perigo à sua posição no trono, é mal treinada e tem pouco controle sobre a situação que a cerca. 

A Rainha Elara é, definitivamente, o personagem mais bem construído de toda história, apesar de sumir do enredo depois de um tempo. Desde o início sua personalidade foi bem construída e os motivos de suas ações tinham causa, meio, fim e consequência. 

De forma geral, o livro não surpreende, mas entretem quem não procura nada muito complexo. A leitura é rápida e fluida devido à quantidade de diálogos e a escrita mais leve e fácil. As distopias, que já saíram de moda, precisam hoje se ater aos elementos que as diferencie. A Rainha Vermelha falha, em muitos pontos, ao tentar trazer novos elementos. E, os elementos que traz, são mal desenvolvidos. Talvez nos livros subsequentes da saga, Victoria Aveyard abra mais o universo e explique o que parecem ser falhas na construção da história. No entanto, mesmo se esse for o caso, A Rainha Vermelha ainda é um livro fraco para dar o pontapé inicial a uma sequência de livros, comparando-se a outras distopias melhor executadas.

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